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O vinho primeiro marcou o lugar; o restaurante surgiu quase como consequência natural, assim como o seu nome.
Quando Rolando e sua mulher decidiram investir em Bucelas, não procuravam apenas uma quinta, mas um lugar onde pudessem desenvolver um projeto ligado ao vinho, ao enoturismo e à restauração. Encontraram-no numa região que, para eles, continua a guardar um dos seus maiores trunfos quase em segredo: o Arinto DOC de Bucelas.
O entusiasmo com que Rolando fala do Arinto serve para nos lembrar um detalhe… de monta: Bucelas pertence ao seleto grupo de regiões que dedicam praticamente toda a sua produção de denominação de origem aos vinhos brancos. “Cada terra tem a sua especialidade”, diz. “O Douro, o Dão ou o Alentejo fazem grandes tintos. Nós fazemos Arinto.” Foi este o ponto de partida para tudo o mais.
Se na quinta produzem o vinho e têm adega própria, foi no restaurante que encontraram a forma ideal de apresentar o seu trabalho. Sentados à mesa, os visitantes encontram o vinho no exato contexto para que foi pensado.
Percebe-se isso logo pela garrafeira. Não há referências de outras regiões — não por falta de interesse, mas porque a ideia nunca foi construir uma carta de vinhos portugueses. “Vamos promover Bucelas, vamos promover o nosso vinho”, resume Rolando. Os pratos aparecem depois, pensados para acompanhar os vinhos da casa e não o contrário.
Também por isso a ementa se quer focada e concisa. Em vez de escolhas sem fim ou pratos preparados de véspera, cada refeição que chega à mesa é confecionada no momento. É uma opção que leva a um ritmo diferente e que acaba por definir o carácter da casa, embalado pelo jazz clássico de Louis Armstrong ou Duke Ellington.
Mas aqui o protagonista é sempre o coelho — que, grelhado, fez durante muitos anos parte da identidade gastronómica de Bucelas. Rolando quis recuperá-lo, mas de uma forma capaz de surpreender quem chega pela primeira vez: servido desossado, o coelho é preparado segundo uma técnica própria. Uma vez por outra sempre aparece quem haja tido coelhos como animais de estimação — “o coelhinho do Bambi”, brinca Rolando. Ainda assim, garante que muitos acabam por arriscar a prova, descobrindo uma carne leve e delicada que se revela particularmente feliz na companhia do Arinto de Bucelas.
Quem preferir outros caminhos encontra alternativas, pensadas segundo o mesmo princípio: O filé Wellington de porco presta homenagem às Linhas de Torres Vedras, tão presentes nesta paisagem. Há ainda o chuletón de vaca, quando a qualidade da carne corresponde ao que a casa procura; bacalhau desfiado no forno, preparado por encomenda; e propostas vegetarianas que denunciam a experiência anterior do casal na cozinha italiana, como o risotto de cogumelos e espargos ou os ravioli de vegetais grelhados.
Quando a refeição termina, fica a sensação de que o restaurante nunca foi, afinal, apenas um restaurante, mas uma das maneiras que o casal Baptista encontrou para contar a história de Bucelas. O vinho trouxe-os até aqui. À mesa, esperam que o caminho que trilharam se torne uma estrada para quem os visita.
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